sábado, 24 de abril de 2010

Frustrante é saber que, buscando, encontro hipocrisia em tudo.
Franqueza, por sua vez, não acho nem dentro de mim.

Agora só acredito Clarice (sem preposição mesmo).

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Vento sul

No quintal, a moça de pele dourada pendura roupa na corda. Os pés molhados transformam em lama o chão de terra batida. O vento seca, suave, o suor de suas coxas. Arrepia-lhe a nuca. Prensa o vestido contra o corpo, revelando curvas voluptuosas.

O velho cancioneiro, reflexivo e só, dedilha uma valsinha em cinco cordas. Concorre com o ruído de um rádio que sussurra sertanejos. Tem os olhos fechados, não se sabe se é de cansaço ou de idade - os olhos se perdem nas rugas morenas de sua pele. Quando a melodia tem um ápice, ele faz uma careta emocionada.

A criança curiosa vem ver na janela de onde vem a canção. Desafina versos com sua vozinha tímida:
"Ai, és tão linda
Rosa silvestre
Dá-me o beijinho
Que prometeste"
Um passarinho pia também.

De súbito ruge um trovão e cala a cantoria. A chuva cai e tudo cessa.
Que pena!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Acidente na Rio Branco

Entrou sério na clínica, apanhou uma revista dessas que só mesmo em sala de espera um sujeito culto se digna a ler e demonstrou uma paciência incompatível com o ambiente. Cerca de 45 minutos se passaram até que fosse atendido. Na intimidade do consultório, o doutor leu e releu sua ficha com um misto de sisudez e espanto .
- Mas a sua saúde é exemplar! Colesterol excelente, pressão estável, leucócitos inalterados... Qual é a razão da visita?
- Eu gostaria de remover o meu braço esquerdo.
O médico coçou a cabeça, tremeu a sobrancelha contraindo um esgar e questionou se não devia ter pedido também uma tomografia, ressonância ou um qualquer desses exames neuropsiquiátricos que avaliam as mazelas do cérebro e pretendem medir a sanidade dos homens. O rapaz era mentecapto, com certeza.
- Explique então, meu jovem. Por que você quer arrancar o braço?
- Esquerdo. - frisou o paciente.
- Sim, esquerdo.
Aos doidos não se contraria a lógica.
- Tem uma tatuagem nele. Muitas lembranças.
Lançou um olhar fugaz para a janela aberta. Um olhar de saudade. O doutor arrepiou-se, temeroso.
- E não seria mais fácil apagar a tatuagem? Há uma série de lugares que fazem este serviço. Eu mesmo não trabalho com dermatologia, mas conheço um especialista...
- Não, não. O senhor não está entendendo. Eu não quero apagar a tatuagem. Eu quero removê-la.
Silêncio no consultório. O doutor pediu uma ambulância pelo telefone, com discrição. O paciente prosseguiu inabalável.
- Quando se apaga alguma coisa tem-se a necessidade de se cobrir com uma outra. É como escrever no caderno, apagar, e ver aquele rastro que fica de que algo um dia foi escrito. Eu não quero cobrir a tatuagem com uma outra. Nem olhar pro meu braço e saber que ali tinha uma tatuagem. Assim como prefiro arrancar a página do caderno, prefiro remover meu braço esquerdo.
- Creio que não posso ajudá-lo. Tem ciência das consequências dessa escolha? Não é algo que se possa alterar. O caderno tem muitas folhas, braço esquerdo só tem um.
- Não vejo grande diferença. Sou destro. Além disso, me contento com um braço mecânico, será como um caderno novo. Tenho dinheiro suficiente. Eu pago.
Ruídos na sala de espera. A recepcionista deu um grito assustado. O sanatório invadiu a sala numa onda branca. O médico movia-se apreensivo, como quem tenta acalmar um cão raivoso mas tem medo de ser mordido.
- Calma - alertou.
- Calma - repetiu o enfermeiro chefe.
O paciente pacientemente levantou-se. Declarou, paciente, não estar louco.

Saiu pela janela, e não pela porta.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Monólogo

- Felicidade, fica mais um pouco. Eu passo um café, faço umas torradas. Fica só até o filme terminar, depois eu a levo até a porta.
- ...
- Não quer ficar só essa noite?
- ...
- Você me ouve, Felicidade?
- ...
- Não precisa dessa frieza. Fala comigo. Pode até ir embora, mas me promete que você volta?
- ...
- Promete que você existe?
- ...

domingo, 19 de abril de 2009

Quero só o que não existe

Não quero essa atenção ensaiada, estampada nos olhos dos outros.
Não quero a conversa vazia dos salões de vida pseudo-adulta
Não quero sustentar a mentira alheia
Nem a saudação torta, cronometrada, programada.
(às 14h eu tenho tempo - não quero mais ter tempo)

Não quero a carência arredia dessas almas nômades.
Não quero mais quem não sabe nada, nada mesmo,
Nem quem não sabe sentir nada, nada mesmo
além do próprio umbigo

Não quero mais!

Não quero mais ouvir a falta que faz o que não faz falta.
Não quero mais procurar razão no irracional.
Nem saber das histórias de quem quer o que eu não quero.
(E o que eu não quero?)

Não quero mais nada.
Não quero mais ninguém.
Não quero mais lugar nenhum.

Quero mais.


Perdi a capacidade de escrever.

domingo, 12 de abril de 2009

Tão somente.

Thaís fechou a porta e abriu o livro na página 119. O livro não, a xerox dele. Rabiscos de "eu odeio" e "eu quero" contaminavam o rodapé.
Thaís tentou controlar sua mania de prever os atos alheios. Os eufemismos abreviados do criancinha. O impulso etílico dos amiguinhos e coleguinhas - todos devidamente diminutivados e diminuídos.

Thaís narra a própria vida mentalmente quando lê romances em demasia. A vida mesma devia ser um romance. As pessoas mesmas - e todas, sem exceção - deviam viver romances. De literatura e de cinema. Final feliz não devia ser clichê.
Abriu o Word e começou a monografia. Digitou com fervor idem's, apuds e ipsis litteris.

"Eu sou uma citação?"

domingo, 11 de janeiro de 2009

Duas manhãs de Abril

Foi com uma espécie de asco que descobriu que aquilo existia. Crianças que mais pareciam um esqueleto, só que negrinhas, cabeçudas. Os dentes branquíssimos e os beiços gordos, os olhos amarelos e cansados.
- Mãe, que é isso?
- São as crianças na África.
O choque era tanto que não conseguiu perguntar como elas carregavam a mochila da escola com aqueles braços fininhos.
Aos poucos virou uma obsessão vasculhar a revista em busca daquela imagem. Não, não podia estar lá ainda. Não podia ser verdade. E quando a encontrava, mudava logo de página, como quem vê uma obscenidade e tem medo de ser pego no flagra.
E a pergunta... As perguntas todas que desejava fazer lhe apavoravam. Achava a curiosidade sádica.

"Eu sou má".
Desejou poder ler aquelas letras todas.
Iludiu-se com a possibilidade de ser só um anúncio de um filme de horror.

Na Segunda a faxineira (negrinha, cabeçuda) dirigiu-se à sala de estar. Esbarrou na criança, que apavorou-se ao reconhecer na moça as características da foto.
- Você veio da África?
E a expressão confusa da mulher, a boca aberta, os olhos cansados, não deixaram dúvidas. Mesmo a moça negando, já não tinha jeito. A menina entendeu, na sua cabecinha imaginativa, que a negrinha era uma sobrevivente. Uma heroína. Com lágrimas nos olhos, abraçou a moça.
Um abraço úmido venceu a História.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Entreouvido por aí: na depilação

- Boa tarde, qual o serviço que a senhora deseja?
- Só a área de lazer.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Você está de saco cheio quando:

- Fica triste ao acordar, e portanto dorme até depois do meio-dia.
- Evita algumas pessoas, por razões específicas.
- Evita algumas rodas sociais, por razões ainda mais específicas.
- Começa a ver razões específicas em tudo.
- Come mais em um dia do que costumava comer em uma semana.
- Fala mais palavrões por minuto do que costumava falar em uma semana. E não sente vergonha.
- Ri maleficamente quando alguém comenta que "você tá estranho(a)".
- Se sente parte do Show de Truman (e alguém reafirma essa teoria).
- Manda à merda qualquer pessoa que vier com discurso de livro de auto-ajuda e/ou ditos de Igreja, dentre as quais:
"É só você querer pra conseguir"
"Mentalize. Tem que ter pensamento positivo, porque energia negativa atrai coisas negativas" (este, além de irritante, vai contra as leis da física)
"Tenha fé em Jesus"
"Reze minha filha. Reze pedindo o que você quer que Deus nosso Senhor vai te ouvir"
ou até mesmo
"Faz um pedido antes de soprar a velinha!"
- Diz "vassifudê" pra objetos inanimados - inclusive o Orkut e todas as sortes do dia a ele vinculadas.
- Passa a irritar propositalmente as pessoas que te irritam.
- Tem discussões que não levam a nada pelo simples prazer de dizer ao fim da briga "eu odeio [acrescente aqui o substantivo desejado]".
- Entende e concorda com Sweeney Todd em todos os pormenores.



Juro que não é nada pessoal.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Pra boi dormir

Prefácio: Isso que dá tomar meio litro de café às 20h: tô sem sono. Nada, nada, nada. Vou ficar aqui, escrevendo. Só não sei sobre o quê.
*grilos cricrilando*

Capítulo 1:
Ah, tinha um inseto na minha cortina!
Eu primeiro pensei que era uma baratinha, depois vi que era mais cascudo do que isso. Aí achei que fosse um besouro, mas era pequeno demais, magro demais. Concluí que era um estágio pra percevejo. Definitivamente um quase-percevejo, só que sem fedor.
Abri a janela pra ele sair, e nada.

Capítulo 2:
Aparentemente Godofredo - como eu o batizei (um nome engraçado pra um bicho engraçado) - gostou do meu quarto. Não voou; ficou lá, mexendo as anteninhas. Se eu não tivesse com tanta preguiça - porque o corpo tá cansado, a cafeína só tira é a capacidade de dormir, mesmo - teria pegado uma lupa para analisá-lo mais de perto. Simpatizei com Godofredo. Sorri pra Godofredo. Godofredo acenou pra mim com as anteninhas. Voltei a digitar mais leve. "Tem um inseto não-identificado na minha cortina, a vida é bela". Até as náuseas passaram com a presença de Godô no meu quarto. Pensei em realmente adotá-lo; senão como companhia, como remédio. Godofredo devia ter poderes milagrosos, uma aura benta, sei lá. Só sei que me curou.

Capítulo 3:
Vez ou outra ele dava uma andada, mas sem sair da cortina. Tinha patas feias, dessas de besouro rola-bosta. Donde vem tantos insetos, meu Deus? Sério, tem muito nessa cidade. Já apareceu uma cigarra na sala, uma mariposa no banheiro e uma esperança na estante - só o bicho, infelizmente.

Capítulo 4:
Mas então, como eu dizia, o quase-percevejo Godofredo Astolfo (porque a essa altura ele já tinha um sobrenome) continuou lá, paradão, lendo as minhas conversas aqui no MSN, quando mamãe veio, deu um berro e mandou Doutor-cura-vômito pro beleléu.
Segue o diálogo pré-inseticídio:
- Olha, mãe tem um bicho na minha cortina *voz meiga de criança apatetada*
- AH! ESSE BICHO PICA!
- Pica nada, ele é mágico!
- Pica sim, peraí!
- Não mata!
* Mãe pega papel. Mãe amassa Godofredo. Barulho de bicho cascudo se contorcendo. Morte de Godofredo.*
- Eu disse pra não matar, mãe! Era só botar ele do lado de fora da janela!
- Eu não matei, só embrulhei* ele no papel toalha.

Foi assim que minha mãe (com uma péssima justificativa) matou um inseto-mago justo nos primeiros minutos do seu aniversário.
E Godofredo não fedeu, o que reafirma seus poderes curativos através da teoria de que é mais provável um ET tomar a forma de inseto pra remediar meus engulhos do que um percevejo não feder quando amassado.

Capítulo 5:
Seremos invadidos em represália?

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*Nota para o eufemismo: embrulhar < amassar < matar.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

There was a pretty little girl
in a cold, strange old world
that, she knew, was not kind,
wasn’t a friend, but in her mind
it was just a grammatical question;
First, she treated it as “him”,
and wrote His name as he was a king,
as no one before had ever mentioned


The World


Like an emperor, a king or a god,
the World is full of people,
and people are fool and odd;
She started smiling to everyone
and, though they didn’t smiled back,
she persisted; they were dumb;
She kept smiling, so they could see
she loved them all: loved you, loved me;
From time to time a pure soul
would answer her (what a goal!);
A timid smile from the bus’ backseat
from someone that thought she was weird;
It was clear that nobody, besides that girl
called that planet with capital W;
Nobody there had thought before
that they probably wouldn’t see her anymore;
The World is enormous and people vanish;
If not for death, they are simply banished
from other people’s lives without a clue
(as said before, the World is full);
If they knew it, then that timid smile;
would be no longer pity, but goodbye.
And seeing people just for an erasable second
wouldn’t be strange, or sad, or scheming,
for each smile would be a World pulse echo,
a brand new delightful feeling.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Porque passarinho morre tão bonito

Prepare-se para o relato de um dia repleto de verdades irrefutáveis:

No auge da forma, no ápice da árvore, sabe-se lá como passarinho cai no chão. Quem já viu rolinha morta bem sabe: a ave que parece folha caída; os olhinhos fechados, o bico semi-aberto num último suspiro.
Até esse dia eu não sabia que formiga comia passarinho - o mundo dá mesmo muitas voltas! É como um frango comer humano assado, ou uma vaca beber do nosso leite, deixando o nenê desmamado preso pra virar vitela. Até esse dia eu tinha nojo de bicho morto.

(Tentei não retornar a isto, mas é inevitável: o pombo morre feio. Outro dia atravessava a rua quando um carro veio e BUM!, pena pra tudo quanto é lado. Vê-se pombo torto, amassado no asfalto, vísceras em decomposição. Já a rolinha parece um anjinho caído do céu, com as asinhas escancaradas numa última tentativa de voar. Se morto falasse, a rolinha suspiraria "ai de mim!". Se morto falasse, o pombo gritaria esganiçado.)

Até esse dia eu tinha nojo de bicho morto, mas a rolinha estava tão bonita que eu fiquei olhando. Não dava tristeza ver aquilo, dava uma espécie de extrema compreensão. Não que eu tenha tendências suicidas - até porque a rolinha não me parecia suicida-, é apenas uma questão de inevitabilidade e aceitação (o que em muito difere de resignação). Cair da árvore, para a rolinha, era inevitável. Encontrá-la à mercê das formigas, para mim, era inevitável.
"Que capricho do destino é ser comido pela própria comida!", pensei enquanto via a sombra negra dos insetos se amontoando sobre o defuntinho. É quase canibalismo. A formiga come a rolinha e a rolinha come a formiga - então a rolinha, de certo modo, come a rolinha!
Aí a gente tenta pintar o quadro com lápis aquarela, e acha que a rolinha vira parte da rolinha. Tão mais bonito que ser simplesmente decomposta! A rolinha, como a fênix, não morre: transcende. Assim como as inevitabilidades transcendem a lógica.
No dia seguinte não havia nem o bico ao pé da árvore pra provar que o meu conto não é só uma metáfora.



Façamos 1 minuto de silêncio pela rolinha que jaz empilhada na despensa do formigueiro.
(...)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"Na África, cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima”.
(Amadou Hampâté Bâ)

Não só na África, Amadou.
Não só na África.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Oração ao meu deus

Tempo nosso, que está em toda parte
O porvir é consigo
Bendito é quem o controla entre os mortais
E bendito é o fruto da sua passagem - esquecer
Seja sempre feita a sua vontade
desde que ela garanta o pão nosso de cada dia
Não nos deixe cair em tentação
Adiante-se quando estivermos fatigados
e detenha-se quando estivermos contentes
Agora e na hora de nossa morte
Amém

domingo, 7 de setembro de 2008

Pena de pombo

Tinham dois pombos bebendo a água que escorria da calha azulada. Chovera no dia anterior; do cano pingava uma gota de cada vez, e enquanto um pombo esperava, o outro bebia; revezavam.
Porém, dentro a calha estava toda enferrujada. Os pombos por dentro também deviam estar muito podres; as vísceras, os vermes todos. Os pombos devem ter muitos vermezinhos com os quais praticam simbiose pra não morrerem intoxicados pela água impura que bebem. São quase ratos, só que ninguém os quer pra fazer teste de laboratório.
Já vi pombos bebendo água de esgoto - ou há muita sede, ou muita resistência gustativa e imunológica. A água do esgoto é bonita se a gente vê com olhos de criança a paisagem que ela reflete. Quando chove, as poças d'água refletem os prédios, o céu, os fios de alta tensão e os pombos que pousam nos fios. O pombo feioso e sujo, com aquele intrigante colarinho esverdeado. Parece que o pombo tá sujo de óleo, feito vítima de desastre ecológico, e aí eu tenho vontade de cuidar. Só que humano não pode encostar em pombo; dá doença. Chama-se "toxoplasmose". Lá em Novo Hamburgo um pombo apareceu com a asa quebrada, eu peguei no colo pra tirar do meio da rua e a moça disse: "lava essa mão que esse bicho é nojento". Passou até remédio em mim. Foi assim que aprendi: não pode! Ai-ai-ai!
Tem pombo mutilado, tipo veterano de guerra; não tem pata, voa torto, o bico quebrado, as penas caindo. Mas a gente não pode fazer nada porque o pombo tem doença. E como a gente não pode fazer nada, só assistir àquela miséria, a gente tranforma compaixão em asco e faz cara de nojo quando ele dá rasante. A reação que me dá ao ver pombo mutilado é das mais desagradáveis: dó e auto-censura; nojo dele e ódio de mim porque o coitadinho não tem culpa de ser o que é. Travo uma verdadeira batalha de valores e nunca sei o que é o certo de se sentir.
O pombo é um bicho incompreendido porque ninguém fala com voz afetada quando vê as suas crias. Ninguém sequer usa o diminutivo quando se refere a elas: são filhotes de pombo, não são filhotinhos. Já tentaram acertar uma bola de basquete num filhote de pombo, eu gritei "pára! pára!" e o passarinho voou. Pombo é tão incompreendido que a gente esquece que ele também é passarinho, que voa, e que se inclui em todas as metáforas de liberdade e beleza que a gente faz em relação às aves.
Eu tenho pena de pombo, especialmente daqueles que compartilham a água, porque ser pombinho hoje em dia não é fácil nem pra ser humano. Porque a beleza daquela cena só existiu enquanto eu olhei de longe, esqueci as vísceras, os vermes e a ferrugem.
Às vezes a ignorância é uma dádiva.


-
ps.: Por que eu fico tão obcecada por coisas e pessoas sem importância?

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Eu mitifico as coisas - parte I

Eu mitifico as coisas. Acho que esse é meu maior defeito.

Parte I - Personificação
Personifiquei Rosinha, Sebastian, Pandora... Engraçado que nem todas as personificações tem relação direta com a minha emotividade; descobri que personifiquei meus lugares preferidos também, só porque querem destruir um deles - o Paissandu.
De todos os cinemas cariocas, o meu favorito era esse. É, eu falo como se já o tivessem matado. Pra mim ele tá morto desde que li a notícia. Por um tempo me perguntei se deveria ou não participar das sessões-finais-a-preço-de-banana em sua homenagem, mas decidi que não. Acho que eu choraria. Prefiro lembrar dele como o local das sessões solitárias, da pipoca insossa, o templo da minha auto-suficiência emocional.
O Paissandu não foi um marco na minha história. Nunca conheci ninguém lá, não foi onde eu vi o melhor filme da minha vida; normalmente me escondia nele quando tava afim de ficar só ou quando haviam eventos imperdíveis como a sessão dupla Daniele Thompson e os Festivais de Cinema (o do Rio e o da França). Você não esbarra em conhecidos no Cinema Paissandu do século XXI (em 1968, talvez; outros tempos, outra história), e isso, que pra mim é uma vantagem, deve ser um dos principais motivos do assassinato.
Comprava-se o ingresso quase sem fila, nada de lugar marcado. Enquanto a sessão não começava, Sorvete Itália e Aterro. Às vezes pipoca doce do carrinho ali da frente (esse sim tinha pipocas gostosas!), que é mais barato. Conversava-se com desconhecidos na expectativa do início do filme - "sabia que o principal é filho da diretora?".
Aposto que eles nem consideram isso um crime. Devem achar que é só eutanásia, que o Paissandu já tava meio morto... tava nada. Paissandu era um local de vida pulsante, porém silente (só porque se está quieto se está morto, é isso?); era um lugar de quase-sonho: as poltronas vermelhas de couro, o senhor de cabelos brancos que picotava os ingressos na entrada, a única sala cheinha de gente quando o filme era aclamado pelos críticos.
Não dá pra imaginar ainda o que vão ser dos Festivais sem o Paissandu. Ano passado foi o único a receber a maratona de filmes franceses. Onde será esse ano? E quando eu estiver de saco cheio, pra onde é que eu vou? Matarem o Estação Paissandu é, para mim, como queimarem a Cláudio Coutinho, ou drenarem a Lagoa - um abuso de poder, um egoísmo, uma ofensa à história. Talvez se eles pensassem na blockbusterização dos demais cinemas mantivessem esse, com suas histórias singelas, vivo. Em nome dos bons tempos em que as pessoas davam valor às pequenas coisas.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Para calar meu grito mudo

Eu quero me trancar num baú e engolir a chave
Quero assistir lá de dentro a minha própria alma
Quero assistir lá de dentro à minha própria alma
Vou velar a minha emotividade

Quero me enterrar num baú e me trancar na chave
Quero engolir lá dentro a minha própria alma
Quero engolir lá dentro da minha própria alma
a minha emotividade

Quero me engolir num baú e enterrar a chave
Quero trancar lá dentro a minha própria alma
Quero me trancar lá dentro da minha própria alma

Vou velejar no velório da minha emotividade
levando comigo uma luneta, pois ver miúdo cansa a vista
E sem visão, tudo cansa.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Quando as férias geram claustrofobia

Não é que eu dependa dos outros pra ser feliz. É que ficar trancafiada dentro de casa dia e noite, noite e dia é um saco. E sair sozinha, senão para ver um excelente filme num excelente cinema de rua, é frustrante.
Minhas opções então se limitam a:
ir para o refúgio
ou
ver Molière, o filme do Romain Duris.

Tá.
Isso, é claro, na hora que eu acordei; não agora, porque tá tarde demais pra ir pro refúgio & pra ver Molière (Paissandu às 21h sozinha é "oi, me assaltem" total). Molière passou pra quinta-feira, então. E eu passei do nível suportável de tédio (o downloadomaníaco) pro nível mais profundo do pântano do fastio.
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A ver:

MEDIDOR DE TÉDIO
(e suas respectivas conseqüências)

1- Culto = não só não é perigoso como é saudável, também. É aquele dia em que você acorda sem nada pra fazer e pensa com um sorriso: "vou peregrinar pelas locadoras da Tijuca" ou "vou garimpar livros/DVDs num sebo/nas Lojas Americanas". É divertido até um certo ponto: o momento em que você viu tantos filmes ou leu tantos livros que não consegue mais se concentrar.

2- Downloadomaníaco = Você começa a sofrer uma leve preguiça de sair de casa. Acorda e vai direto pro computador. Baixa CDs compulsivamente. Também não é exatamente doentio, não se você baixar até 10 CDs por dia. Quando passa disso (e pior, você escuta todos enquanto baixa mais, obstinadamente) a coisa complica. Já tive casos de fazer apostas comigo mesma, como "aposto que consigo baixar 1 em cada servidor em menos de 1 hora".
.
3- Pantufóide = Tá, agora é preocupante. Você troca o pijama às 16h da tarde. Veste pantufas, camisas que ganhou da sua avó ("Agüenta que é penta!" e "Mc Dia Feliz 2003" também valem) e mantém olheiras de zumbi. Sua vida se limita a comer, dormir e tomar banho. Longos banhos. O nível de irritabilidade cresce e você não sabe exatamente porque. Óbvio que a clausura está te enlouquecendo aos poucos, mas você ainda não é capaz de perceber.
.
4- Criar raízes = Você tem preguiça de suprir suas necessidades mais básicas: vai mijar quando a bexiga está quase explodindo; não troca mais de roupa: troca de pijama. Comer perde a graça. Você se entrega aos joguinhos em flash, ou a jogos de carta sozinho, ou a passatempos de jornal (sudoku e derivados). Eu costumo fazer doces complicados, desses que levam uma vida pra ficar prontos. Cookies, tortas gigantescas com glacê... e o pior é que você não come, porque não tem fome. Como poderia, se você passa o dia sem gastar um grama de energia?
.
5- Pântano do fastio = Dá-se início ao cultivo de ódio pela raça humana. Você liga pra toda a agenda do seu celular, inclusive pra aquelas pessoas que você não devia em hipótese alguma chamar pra sair. Todos os seus princípios do tipo "não saio com Fulana pra tal lugar porque ela bebe demais e fica dura de aturar" se esvaem. É capaz de você pôr no jornal o anúncio "Fulana, vamos sair pra beber!" por puro desespero. Se você alcançou esse nível, se interna. Ou então me liga e vamos fazer alguma coisa!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Autoflagelo: os (meus) lugares-comuns.

Não quero escrever tudo certinho, nem pontuar de forma impecável, mas também não quero tranformar este blog num diário. Quero tranformá-lo nele próprio, quero que ele não deixe de ser, e ele está deixando... apesar de sabê-lo, não quero criar histórias. Também não quero matar Anabela e Thiago, gosto muito de ambos, quero só torturá-los psicologicamente e ver até onde podem suportar (não sou muito melhor que um cientista nazista - não no que diz respeito às minhas personagens). Mas também não quero falar de processo criativo, nem de metalingüística, embora provavelmente vá acabar falando de um ou outro ou ambos. São lugares-comuns¹ da autora.
Não darei desculpas pelo meu writer's block, até porque não há writer's block nenhum. It's just too much time spent on too much things that do not seem related to each other. Eu não devia perder tempo, é claro. Mas procrastino. Procrastinar é meu lugar-comum.
Vejo este blog hibernar e vejo a mim também. Que nem árvore no outono. Eu sou as folhas do outono. Ou a seiva de uma árvore siberiana - há árvores na Sibéria? Existo, mas não sinto, nem me faço sentir. Plantificar é um recém-adquirido lugar-comum. Foi uma visita breve, a princípio, mas gostei da idéia de criar raízes e fotossintetizar nutrientes e não pensar e, literalmente, vegetar. Vegetalizar, veja bem: vegetalize-se mentalmente. Façamos um lugar-comum comunitário.

Nada, porém, vence a trivialidade do meu lugar-comum mais amplamente utilzado: as cores. Estão em toda parte; nos meus textos, no meu orkut, no meu quarto, nos meus cadernos - até no Sebastian², coitado. Deve ser uma espécie de frustração por não saber desenhar³. Por isso às vezes acho que mudar o layout desse blog o tempo todo resolveria o problema de sua impessoalidade. Tranformaria este blog no meu lugar-comum preferido, um lugar-de-lugares-comuns, um lugar-lugar-comum, 2x(lugar) + comum.

Lugar-comum é um sinal de vida, quase uma pulsação.
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1
Lugares-comuns preferidos (sim, é parcialmente irônico):
1- Chegar atrasada. Clichê da minha pessoa. (irônico)
2- Colorir - mentalmente - a vida. Descobri que é um lugar-comum do Erico Veríssimo também. Leiam seus prefácios. (não-irônico)
3- Tudo, tudo relacionado à Rosinha. (não-irônico)
4- Não saber o que fazer. (irônico)
5- Pessimismo. (irônico)

2
Devo uma explicação sobre Sebatian ou já os apresentei? Caso não o tenha feito, Sebastian é ninguém mais ninguém menos que o meu caderno personificado. Não, não é um diário sentimentalóide. Abomino diários sentimentalóides. E eu não o chamo de "Querido". É só mais fácil escrever sobre as coisas que você não quer que ninguém leia quando se imagina que alguém as está lendo.

3.
Lista das cinco coisas que quero fazer se passar no vestibular este ano:
1- Faculdade de Comunicação Social
2- ... e de Psicologia também.
3- Aula de desenho/pintura/escultura.
4- Curso de francês ou italiano - ainda não decidi
5- Yoga.

sábado, 26 de abril de 2008

Energia limpa

Outro dia chamaram de mito: tudo suja, tudo polui, tudo degrada.
Mas pra quê aquecer os miolos e a atmosfera do planeta?
Pra quê decorar 1973 com todos os seus pormenores?

A resposta não é petróleo, urânio, nem biocombustível.
Lamento informá-lo, Sr. Burns: é o amor* que move o mundo.
E eu duvido que consiga extraí-lo ou refiná-lo.

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*Nem sempre é uma forma menos egoísta e mais limpa de se mover o mundo. Mas sonhemos alto, né...